Evite a tentação da linguagem bélicaPor mais que a guerra esteja hoje presente em toda a sua crueza nas imagens dos telejornais, às vezes é difícil explicar o fascínio que a terminologia bélica exerce sobre os jornalistas.
Jogos de futebol se tornam batalhas campais, críticos impiedosos manejam permanentemente suas metralhadoras giratórias, sessões do Congresso são dominadas por tiroteios verbais entre antagonistas, e bancadas majoritárias dirigem seu fogo de barragem contra oponentes mais frágeis.
Mas, como tudo se atualiza, há pouco um jornal considerou determinado deputado vítima de uma bala perdida na troca de chumbo entre a situação e a oposição. Derrotados pela fuzilaria cerrada dos mais fortes, só resta aos contendores contabilizar as perdas, bater em retirada e curar as feridas.
O lugar-comum, travestido de frase de efeito, teve intensa circulação na imprensa - nos anos de chumbo - (aí está um deles) da ditadura militar. Impedidos de expressar claramente suas opiniões, os jornalistas buscavam no circunlóquio a forma de burlar os censores, quase nunca bem-dotados intelectualmente para apreender o sentido oculto de uma expressão infiltrada com habilidade na frase.
Quem se preocupa com a objetividade do texto e lê esses rodeios de palavras hoje, 30 ou 40 anos depois, conclui que tudo aquilo poderia ser dito na metade do espaço utilizado. Poderia, claro, mas passaria pelo crivo rigoroso dos policiais das idéias?
Os chavões vigentes, até aí, constituíam frases feitas consagradas pelo uso, como depois de um longo e tenebroso inverno, valorosos soldados do fogo (bombeiros), precioso líquido (água, hoje preciosa mesmo…), segredo guardado a sete chaves, do Oiapoque ao Chuí, chover a cântaros. Ruins? Sem dúvida. Mas não menos do que os que viriam a dividir a cena com eles.
O regime militar foi um - divisor de águas - (aí está mais um clichê), pois as colunas políticas passaram a adotar fórmulas a que os leitores não estavam habituados. E surgem, entre elas: circular com desenvoltura pelos corredores do poder, trocar farpas (insultos, quase sempre), costurar acordos, entrar em rota de colisão, apostar suas fichas, não convidar para a mesma mesa, raposa felpuda, transparência (como clareza), mostrar cacife e dezenas de outras.
A economia, que não podia ficar atrás, também cunhou seus curingas. E tome demanda de usuários, enxugamento do crédito, inflação galopante, reversão das expectativas, apreciação da moeda, contingenciamento (seja lá o que a palavra signifique…), parametrização de preços, planta industrial, etc., etc. Para mostrar, porém, que a criatividade nesse setor jamais se esgota, a situação em que os bancos maiores concentram o dinheiro disponível no mercado produziu o empoçamento (de poça, mesmo) de liquidez. Pois é, prezado leitor, não estranhe: nesse tipo de linguagem, bom gosto é o que menos conta.
Eduardo Martins, jornalista, é autor do Manual de redação e estilo, de O Estado de S. Paulo, do livro Com todas as letras - O português simplificado e dos Resumões de Língua Portuguesa.
Here the author talks about clichés that came to life (some of them enjoyed an extensive use during the dictatorship years) owing to wars that unfortunately abound on our planet. A lot of them are to his regret used figuratively in other fields, such as sports or politics. Any comments?
Brazilian dude
